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quinta-feira, 18 de junho de 2015

fonte:bibliotecariodebabel.com (Prémio Camões) 2015

Quatro poemas de Hélia Correia

1.
Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;

2.
Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.

7.
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.

23.
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

[in A Terceira Miséria, Relógio d’Água, 2012]

5 comentários:

✿ chica disse...

Muito lindos os poemas! beijos ,tudo de bom,chica

Mar Arável disse...

A nossa Hélia

Cidália Ferreira disse...

Poemas maravilhosos!

Obrigada pela sua visita.

Bom fim de semana, Beijos

http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

Lindos poemas querida Irene!
Grande abraço e lindo final de semana.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, A bandeira portuguesa "acordo ortográfico, Não obrigado," está a tapar parcialmente os poemas escritos pela poeta Hélia Correia, Não li o poema na totalidade mas deu para o apreciar e gosta.
Boa semana.
AG