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domingo, 11 de maio de 2014

É um artigo um pouco longo, mas merece ser lido por isso o estou a partilhar convosco

Quando terminar a recessão teremos perdido 30 anos de direitos e salários.

Um dia no ano 2014
vamos acordar e vão anunciar-nos que a crise terminou. Correrão rios de tinta escrita com as nossas dores, celebrarão o fim do pesadelo, vão fazer-nos crer que o perigo passou embora nos advirtam que continua a haver sintomas de debilidade e que é necessário ser muito prudente para evitar recaídas. Conseguirão que respiremos aliviados, que celebremos o acontecimento, que dispamos a atitude critica contra os poderes e prometerão que, pouco a pouco, a tranquilidade voltará à nossas vidas.




Um dia no ano 2014, a crise terminará oficialmente e ficaremos com cara de tolos agradecidos, darão por boas as politicas de ajuste e voltarão a dar corda ao carrocel da economia. Obviamente a crise ecológica, a crise da distribuição desigual, a crise da impossibilidade de crescimento infinito permanecerá intacta mas essa ameaça nunca foi publicada nem difundida e os que de verdade dominam o mundo terão posto um ponto final a esta crise fraudulenta (metade realidade, metade ficção), cuja origem é difícil de decifrar mas cujos objetivos foram claros e contundentes

- Fazer-nos retroceder 30 anos em direitos e em salários


Um dia no ano 2014, quando os salários tiverem descido a níveis terceiro-mundistas; quando o trabalho for tão barato que deixe de ser o fator determinante do produto; quando tiverem feito ajoelhar todas as profissões para que os seus saberes caibam numa folha de pagamento miserável; quando tiverem amestrado a juventude na arte de trabalhar quase de graça; quando dispuserem de uma reserva de uns milhões de pessoas desempregadas dispostas a ser polivalentes, descartáveis e maleáveis para fugir ao inferno do desespero, então a crise terá terminado.


Um dia do ano 2014, quando os alunos chegarem às aulas e se tenha conseguido expulsar do sistema educativo 30% dos estudantes sem deixar rastro visível da façanha; quando a saúde se compre e não se ofereça; quando o estado da nossa saúde se pareça com o da nossa conta bancária; quando nos cobrarem por cada serviço, por cada direito, por cada benefício; quando as pensões forem tardias e raquíticas; quando nos convençam que necessitamos de seguros privados para garantir as nossas vidas, então terá acabado a crise.



Um dia do ano 2014, quando tiverem conseguido nivelar por baixo todos e toda a estrutura social (exceto a cúpula posta cuidadosamente a salvo em cada sector
), pisemos os charcos da escassez ou sintamos o respirar domedo nas nossas costas; quando nos tivermos cansado de nos confrontarmos uns aos outros e se tenham destruído todas as pontes de solidariedade. Então anunciarão que a crise terminou.




Nunca em tão pouco tempo se conseguiu tanto. Somente cinco anos bastaram para reduzir a cinzas direitos que demoraram séculos a ser conquistados e a estenderem-se. Uma devastação tão brutal da paisagem social só se tinha conseguido na Europa através da guerra.
Ainda que, pensando bem, também neste caso foi o inimigo que ditou as regras, a duração dos combates, a estratégia a seguir e as condições do armistício.


Por isso, não só me preocupa quando sairemos da crise, mas como sairemos dela. O seu grande triunfo será não só fazer-nos mais pobres e desiguais, mas também mais cobardes e resignados já que sem estes últimos ingredientes o terreno que tão facilmente ganharam entraria novamente em disputa.

 




Neste momento puseram o relógio da história a andar para trás e ganharam 30 anos para os seus interesses.
Agora faltam os últimos retoques ao novo marco social:Um pouco mais de privatizações por aqui, um pouco menos de gasto público por ali e“voila”: A sua obra estará concluída.

Quando o calendário marque um qualquer dia do ano 2014, mas as nossas vidas tiverem retrocedido até finais dos anos setenta, decretarão o fim da crise e escutaremos na rádio as condições da nossa rendição.Concha Caballero é licenciada em Filologia Espanhola e professora de literatura num instituto público.
 Abandonou a politica decepcionada com a coligação eleitoral do seu partido.
 Há anos que passou do exercício da politica activa para analista e articulista, social e politica, de vários meios de comunicação, com destaque para o EL PAÍS.
 É uma amante da literatura e firmemente humana com as questões sociais.


(recebido do meu amigo Henrique Antunes
 Ferreira, a quem agradeço)
 
 
 
 

de: CONCHA CABALLERO
 
 


6 comentários:

Evanir disse...

" Surpriendentes
As Cores
Que Damos
As Nossas Dores " ( Eloah)
Cada novo dia vem salpicado de
esperança e novas possibilidades.
E tudo é melhor quando o sol está brilhando
e nos aquecendo em cada alvorecer.
Não deixe que nada afete a alegria do seu coração.
A felicidade está alcance do teu abraço.
Então receba o meu.
E acredite é com todo amor que existe
na minha alma e meu coração.
Feliz Dia das Mamães .
Carinhosamente.
Evanir.

. intemporal . disse...

.

.

. aos que dizem que "estamos melhor" . eu questiono .

.

. ____________________________ .

.

. sob as margens do retrocesso .

.

. um beijo meu .

.

.

O Árabe disse...

Concordo, amiga; merece, sim, ser lido. E com muita atenção! Boa semana, fica bem!

Emília Pinto disse...

Pois é, amiga, penso que todos os portugueses já perceberam isto, mas, falta-nos a coragem para um novo 25 de Abril; estamos muito acomodados e não sei se acordaremos a tempo. Bem...esse tempo já passou há muito e não há como voltar atrás. Obrigada pela partilha deste texto e por nos teres pedido que cá viessemos; esqueço-me sempre que tens dois blogues. Um beijinho e uma boa semana
Emília

Evanir disse...

Aqui estou mais uma vez e bem feliz em perceber que posso contar com seu carinho.
O mar não é distância para termos amigos .
Deixei uma postagem no blog A Viagem onde comunico uma cirurgia para dia 27 de maio.
Com certeza ficarei feliz se puder orar por mim.
Uma abençoada semana beijos.
Evanir.
www.aviagem1.blogspot.com

Antonio Reis disse...

Ah, amiga lendo este terrível texto, posso lhe afirmar que do lado de cá estamos a viver esta coisa a muito tempo e dizem que vivemos num paraíso.Saímos de uma ditadura militar de tantos horrores, sobrevivemos e acreditamos numa Diretas Já e vencemos, mas na realidade não ganhamos nada. Institui-se a corrupção, o achatamento das classes, o empobrecimento crescente da camada próxima da fome. O texto é frio, porque as coisas não se processam como apregoam. A vida dos aposentados cá é cada vez mais aterradora e unificação de todos próximos ao salário mínimo é vista a olho nu sem muito esforço de analise. Somos o terceiro mundo, onde poucos têm demais e a maioria vive a lutar por um salário que nunca atende suas necessidades básicas e primarias do direito do homem.Enfim o que se tem por ai, é o que se vive por aqui.
Haja luta,haja tinta,sangue e sofrimento na tentativa de reverter esta situação.
Gostei do texto e acho que me alonguei no comentário, mas a semelhança acende esta revolta de um sistema opressor com cara de democracia, mas que na realidade é um regime falso de beneficiar os políticos e ferrar o povo, logo não pode ser democracia.
Um abração e que a sorte esteja do lado de lá, para uma vida justa e melhor para todos.
Mas é um sonho. Vamos sonhar.

Beijo e bom fim de semana.